sexta-feira, 16 de maio de 2008

A Bicicleta




Na tarde ensolarada de um domingo, os três meninos pequenos, com seus apelidos carinhosos: Jorginho, Cesinha e Lucianinho, um com seis anos, outro com cinco e o menor com quatro anos, respectivamente, foram passear em suas bicicletas reluzentes de tão novas, com farol, buzina e tudo o mais que o pai pudera incrementar para fazer valer esse sonho maravilhoso de toda criança, que era o presente de Natal..
O jardim era o mais bonito e florido de Niterói. Ficava em Icaraí; era o Campo de São Bento.
Já faz muito tempo, porque não dizer, vários anos, uma vez que os protagonistas deste episódio real, desse caso verdade, são nos dias que correm respeitáveis chefes de família. Deduz-se então que a violência, a falta de respeito ao próximo, já estava latente há muito tempo na educação e nos corações das crianças desamparadas.
No entanto aconteceu...
Lucianinho era primo dos outros dois que eram irmãos e viera passar alguns dias em casa de tia Marina a fim de gozar as brincadeiras e as delícias da praia de Icaraí que ainda não estava poluída.
Davam voltas e mais voltas apostando corridas, felizes da vida. De quando em vez, passavam com suas “ potentes máquinas”, por perto do banco que dona Marina se achava sentada para não perdê-los de vista, montando guarda às peraltices dos meninos. E lá iam eles pedalando de contentes. Ao darem uma paradinha para descanso, aproveitavam para dar voltas no auto-pista, no carrossel, no minhocão, deixando as bicicletas perto de dona Marina.
Foi então que dois meninos vestidos pobremente e sujos, um moreninho bonito e o outro um mulato ruivo que não aparentavam mais de onze anos, aproximaram-se de Jorginho e lhe pediram:
-Deixa a gente dar uma voltinha? Falou o moreninho.
Jorginho que não gostou da cara do menino, negou prontamente.
Diga-se de passagem que as três crianças não eram nem um pouco egoístas e costumavam dividir seus brinquedos com os amigos mais pobres que eram esquecidos pelo “papai Noel”. No entanto, como aqueles dois estavam fazendo muita bagunça, implicando com as outras crianças que brincavam por lá, Jorginho fez questão de negar o seu pedido.
-Ah, deixa, é uma voltinha só!...Prometo que não saio daqui de perto...
Jorginho saiu a correr para perto de dona Marina onde estavam as bicicletas, mas o menino o seguiu insistindo: Deixa dona, deixa eu dar uma voltinha só!
-Não mãe, ele vai fugir com a minha bicileta...Eu não quero emprestar...
A mãe do menino penalizada, pediu ao filho. –Empresta meu bem, ele não vai sair daqui de perto.
-É isso mesmo dona, é só uma voltinha por aqui mesmo!.
Jorginho de má vontade, pegou a sua “máquina” que acabara de ganhar no Natal e entregou ao garoto moreno, recomendando: -é só uma voltinha mesmo, viu?
O menino sorriu, montou no sonho do filho de dona Marina e saiu pedalando para nunca mais voltar.
Quando as três crianças perceberam que o moleque se distanciava, não deu mais para correr atrás. O ruivo então aproximando-se, falou: - pode deixar que eu vou buscá-lo. E também nunca mais voltou, pois era seu cúmplice.
Havia um guarda de plantão no Jardim. Jorginho desesperado pediu: -Seu guarda aquele menino roubou a minha bicicleta! Mas também o vigilante nada pôde fazer.
Sem derramar uma lágrima sequer, com os lindos olhos negros arregalados, não despregava-se do lugar achando que o ladrãozinho iria devolvê-la. Foi quando sua mãe o chamou à realidade fazendo-o entender que ele deveria sentir piedade e não raiva daquele pequeno delinqüente. Que se ele continuasse assim seu futuro seria negro, poderia padecer numa cadeia.
-Quanto a você meu filho, Cesinha dividirá a bicicleta dele nos seus passeios até que seu pai possa comprar-lhe uma outra.
O menino parecendo compreender profundamente o acontecido, nem sequer chorou, mas voltou para sua casa nessa mesma hora, junto com seu irmão e seu primo, amargando em seu coração pequenino a grande decepção de um mundo que mal acabara de conhecer. Ficou sem falar o resto do dia, ainda era muito cedo para ter contato com as tristezas da vida.E nesse dia ninguém mais brincou.

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