domingo, 15 de agosto de 2010

Libertação

15 de Agosto de dois mil e dez, século XXI.
Faz sessenta e nove anos de minha libertação de um internato de freiras onde vivi três anos de minha infância, dos dez aos treze , enclausurada, com mais de cem meninas, recebendo visita apenas uma vez por mês, somente de minha irmã Marina, já falecida; pois minha mãe cuidava do marido, meu padrasto, que havia sido vítima de um derrame cerebral, e não podia afastar-se dele.
Durante muitos e muitos anos, senti-me abandonada e pensava jamais sair dali. Figurava-se em minha imaginação infantil, já tendente à poesia, como se estivesse num navio em alto mar que jamais chegaria ao porto.
O Internato era mantido pela grandiosidade da alma do Desembargador Vicente Piragibe e dirigido por Freiras que se intitulavam (Irmãs de Santana); Freiras essas cujas normas de educação eram rígidas e severas.
Agora, depois de tantos anos, cheguei à conclusão de que tudo fora para o meu bem; pois nesse internato as meninas ficavam completamente isoladas das novidades das ruas, livrando-se da perdição que viria de fora, segundo o que nos ensinavam.
E, num quinze de agosto de mil novecentos e quarenta e um, após a morte do meu padrasto, o meu irmão mais velho com sua esposa, foram me libertar, levando-me para sua casa.
E hoje ao relembrar-me, agradeço a Deus pelas missas diárias na capela bem ornamentada, pelos banhos frios coletivos, vestida num camisolão, no galpão cheio de chuveiros pendurados no teto; pelas refeições mal feitas que melhoravam aos domingos e dias de visitas do Desembargador; pelas aulas de ginástica e de curso primário três vezes por semana; pelos dormitórios separados em menores, médias e maiores (eu dormia no das médias), todos com camas de ferro pintadas de branco e forradas com colchas sempre limpas e da mesma cor, como se fosse uma enfermaria de hospital;
Lembro-me também da disciplina rigorosa com as meninas que faziam xixi na cama; do pão seco sem café, que se comia de pé no grande refeitório quando não se cantava direito durante as missas mais solenes, etc...
No dia da Libertação, não me foi permitido despedir-me de ninguém; surpresa para mim e para as que ficaram.
Num carro conversível, já com vestido moderno feito por minha cunhada, rumei para a casa de meu irmão e por ali fiquei algum tempo, saindo para continuar a difícil caminhada, como um bicho raro para todos os que me viam.
Hoje, após tantos anos, aos trancos e barrancos, vejo-me viúva de um homem excepcional; bom marido, afetuoso pai, Jurista e sábio, que me contemplou com quatro filhos, sete netos e um bisneto.
Quando olho para trás, dou graças a Deus e vejo que tudo valeu a pena. A educação rígida e religiosa das Irmãs, com medo que nos perdêssemos nos pecados; a clausura, para que não soubéssemos nada da vida lá fora, tudo me fez uma pessoa recatada, conformada, sem excesso de vaidades e grandes ambições. E repito então, o que meu saudoso marido citou num dos dizeres escritos para mim, contrariando o poeta Raul de Leoni em seus versos Melancolia, que dizia: “Não vale a pena!” Eu repito:
TUDO VALEU A PENA!!!

Nenhum comentário: