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sombras da noite

No silêncio da noite, sobre o colchão macio, a mente fervilha de idéias e pensamentos que, pela manhã, se dispersam no vácuo da claridade que afugenta os espíritos da sombra.
E a cabeça cansada se esvazia; não consegue mais concatenar as imagens fugidias que se desmaterializaram nesta noite de insônia.
Inicia-se então pela alvorada, o processo de recapturá-las:
Tento desvendar o mistério, no túnel dos tempos idos: Vejo-me num sábado à tarde, há muitos e muitos anos atrás, sentada nas areias da praia mais linda de Niterói, Icaraí, com roupa de passeio, olhando o mar, pensativa, quando alguém saindo das ondas, como um príncipe submarino,alto, louro, de olhos esverdeados, me surpreende:
– Não vai cair n’água, biju?
– Atônita, com a audácia do jovem, respondi gaguejando:
– Agora, não. Já vim pela manhã....
Olhando uma pulseirinha no meu braço, perguntou:
Qual é o seu nome?
Numa reação espontânea, tentei escondê-la.
– Eu já vi. É Regina.
Havia um radinho de pilha, que tocava uma ária do barbeiro de Sevilha. Formou-se então um clima de encantamento, fazendo a conversa girar em torno da música, que de imediato percebemos a sintonia de nossos gostos.
Em exatamente onze meses, ouvimos juntos, a marcha nupcial, que selaria nossos destinos por trinta e três anos e quatro filhos.
Chega. Não posso mais me aproximar dos fantasmas que estão além, nas profundezas deste labirinto tão escuro, onde me depararia com a infância e adolescência que lá ficaram, bem no fundo.
Agora, que já vivi mais do que esperado, fico me perguntando, em minha angústia existencial, o que ainda faço por aqui, se a minha geração, quase toda, já se foi embora; se as pessoas com quem convivo, não falam mais a minha língua; não entendem mais o meu vocabulário e nem mesmo conservam as regras fundamentais das relações familiares. .
Já me sinto fora de todo o contexto. Parece que a submissão foi sempre o meu carma.. Agora estou mais só do que nunca: sucumbindo na velhice, esta doença que não tem remédio.
Sem autonomia para dirigir a minha vida, pois estou longe de tudo; não tenho condução própria, dependendo da boa vontade de terceiros para poder ir a qualquer lugar, espero que as horas passem: para ver novelas, fazer palavras cruzadas, orações pela família; e agora, com a boa vontade de Deus que me proporcionou o gosto pela escrita, vou rabiscando, jogando pela Internet os meus dissabores, pois o PC é o meu único confidente.
Esperando que a noite chegue, para quem sabe, pegar uma carona no túnel, juntar-me aos fantasmas que lá estão, e, finalmente, voar para a eternidade.

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