CAPÍTULO III
Chegaram finalmente em casa. Os pais, de caras zangadas esperando uma explicação. Berenice escondendo o livro atrás das costas, tentou passar depressa para o quarto mas não deu tempo.
-Onde andaram até agora? – Perguntou-lhes o pai.
-No cinema. –Respondeu Berenice com a maior tranqüilidade.
-São nove horas da noite. Mesmo que vocês tivessem visto o filme três vezes, ainda não chegariam a esta hora.
Com esse argumento foi por água abaixo a defesa que elas pensaram em usar.
-O que é isto que você está escondendo aí atrás? Perguntou-lhe a mãe.
Não havendo outro jeito, a menina trouxe as mãos para frente exibindo o livro que havia ganho.
-Como conseguiu isso?
A verdade então foi contada nua e crua, com todos os detalhes.
-Com que autorização vocês depois do cinema foram passear no clube?- Perguntou-lhes o pai.
-Nenhuma. Se a gente pedisse vocês não iam deixar mesmo...
Enquanto isso a irmã menor de Berenice esfregava os olhos querendo chorar.
-Atrevida, vai ter o castigo que merece. – bradou o pai.
E como não era hábito seu bater nas meninas ele resolveu o problema com a sabedoria de Salomão: -Vá buscar a palmatória! –Ordenou o velho à filha menor.
A menina tremendo de tão assustada, logo voltou com o objeto antigo de tortura infantil.
-Agora você vai dar uma dúzia de “ bolos” em Berenice e ela depois dará também em suas mãos, com a certeza que se não derem com bastante força, eu mesmo os aplicarei!
E assim as duas foram bem castigadas.
Mas esse episódio não serviu de lição para acalmar os ânimos de Berenice que vivia constantemente com o seu espírito irrequieto sempre aprontando alguma.
As férias escolares haviam chegado; mas o Conservatório de Música continuaria suas aulas por mais alguns dias. E como já foi dito no princípio desta história, Berenice saía pontualmente de casa, sempre na hora certa, para não perder o ônibus, e a tarde chegava em sua casa por volta sempre das sete horas da noite. A esta altura seus pais já se haviam mudado para outro bairro que não ficava no Centro de Niterói, se fazia necessário que ela andasse no coletivo, que por sinal eram sempre os motoristas que já a conheciam devido a sua pontualidade inglesa.
E assim se passaram dois meses. Uma bela tarde em que dona Helena precisou urgentemente de uma meada de linha cor de rosa, imediatamente pensou: -Telefonarei para o Conservatório e pedirei para Berenice trazê-la.
Qual foi a sua surpresa, quando de outro lado da linha informaram: - Minha senhora o Conservatório está em férias há um mês.
Às sete horas da noite, precisamente, sem um minuto a mais ou a menos, entrava pela porta dos fundos, toda feliz, no seu bonito uniforme de saia verde musgo e blusa creme de palha de seda, a gazeteira, sem imaginar que atrás da porta com um chinelo na mão se encontrava sua mãe indignada fazendo valer a sua autoridade, dando-lhe umas boas chineladas.
Depois do interminável interrogatório, Berenice com as pernas vermelhas de tantas lambadas, confessou que passava suas tardes de gazeta no cinema Central,onde já era tão conhecida que entrava sem pagar. E ali fazia sua hora para voltar para casa.
Para completar o castigo, a menina levada ficou sem pôr os pés na rua até que de novo as aulas recomeçassem.